Vectra Branco 96 97

Eu nunca fui muito fã de carros. Minha relação com eles sempre foi muito prática. Achava legal a ideia de ir para qualquer lugar quando quisesse. Também não era alheio à estética, conseguia ver beleza, ou a ausência dela, no design de um carro. Mas a velocidade nunca me encantou. Talvez o fato de o meu computador nunca ter conseguido rodar o Need For Speed Underground 2 tenha contribuído para essa relação, puramente prática, com os carros. Inclusive, até hoje consigo me lembrar da tela de carregamento desse jogo, não só por ela incluir uma ilustração de uma mulher com um belo decote, mas pelas incontáveis vezes que olhei essa tela torcendo pro jogo funcionar. Será que, se com os meus 11 anos eu tivesse conseguido achar um site confiável para download de mais memória RAM, hoje eu seria apaixonado por carros?

Minha família demorou para ter um carro, o que foi positivo, pois me deu uma boa introdução ao mágico mundo do transporte público. Mas existiram carros que marcaram minha vida. Como o do Galego e da Mônica, amigos dos meus pais, que quase sempre nos davam carona pro clube no domingo. Ou o carro da empresa em que meu tio trabalhava, que eu e meu primo usávamos para escutar música e fingir que dirigíamos enquanto ele estava parado.

Mas em um dia, tudo mudou. Em uma de nossas andanças pelo setor central do Gama, acho que depois de passar no banco pra pagar umas contas, meu pai me chamou para irmos ali olhar uns carros. Me perguntei se isso era um convite para um emprego de flanelinha, mas ao chegar em uma loja de carros usados, percebi que não era essa a ideia. Em instantes, meu pai estava flertando com um veículo, um veículo não, um Vectra GLS 96/97 branco, bem conservadinho com curvas agudas e motor 2.0. Uma máquina! Enfim, tudo aquilo que compõe o kit completo do sedã carro de pai. Após algumas olhadelas, Zé Bolacha parecia ter tomado sua decisão, e nem o fato do vendedor ter falhado em demonstrar o funcionamento do alarme do carro o destituiu de sua decisão. O vectra seria nosso!

Carros e carros

E foi assim que o Vectra, que tinha a mesma idade que eu, foi morar lá em casa. Nunca soubemos muito bem do seu passado, mas pouco importava, afinal na mão do meu pai não existiu peça desse carro que não foi trocada, não por preciosismo ou por tentativa de estressar o Paradoxo de Teseu, mas por pura necessidade. O Vectra era sentimental: sua linguagem do amor era pedir por cuidados, seja na parte elétrica que dava pane, num velocímetro que do nada parava de marcar, num vidro que insistia em cair ou no vazamento do recipiente de água que mecânico nenhum conseguiu consertar.

O carro tinha problemas, mas quem não tem? Havia uma questão que pairava no ar sempre que a chave dava a partida: será que o Vectra daria conta? Meu pai sempre respondia rigorosamente – Agora ele tá 100%, resolvi o problema da água – dizia ele enquanto enchia uma garrafa de 2 litros na torneira do estacionamento. A garrafa, que um dia foi de Coca-Cola e já dormiu luxuosamente numa geladeira bem iluminada, hoje se esconde no fundo de um porta-malas, muito espaçoso, mas escuro do Vectra . A verdade é que, na maioria das vezes, o nosso amigo de quatro rodas deu conta, mas os perrengues grudam pra sempre na memória.

O Vectra nunca saiu da nossa família e este ano ele completa 30 anos, com carinha de 200… Por coincidência ou não, temos a mesma idade, e essa magia numérica me faz achar que a idade compartilhada com ele me moldou. Foram muitos momentos, alguns bons, alguns ruins, mas em todos eles aprendi algo. E se você conviveu comigo nesses últimos 16 anos, provavelmente temos uma lembrança compartilhada entre mim, você e o Vectra.


A ideia inicial desse texto era fazer uma coletânea de momentos que vivi com esse carro, mas só a introdução se tornou um texto completo, talvez por excesso de floreios e uma visão romântica da vida. Mas o que seria a vida sem uns floreios por aqui e ali? Dito isso, gosto de pensar que este é o primeiro texto de uma série de outros que falam sobre as histórias compartilhadas entre um moleque que não era fã de carros e um veículo produzido pela Chevrolet em 96.


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