Pé ante pé

Existe uma fase muito crítica na vida de toda criança, que é quando ela começa a perceber a adolescência chegando. De longe ela se aproxima, a princípio não muito distinguível, às vezes na forma de um primo mais velho que não quer mais brincar com você. Ou como uma irritação causada por sua irmã querer colocar posters dos Travessos no quarto que vocês dividem.

Não tem um demarcador muito claro, mas a aura da adolescência vai chegando. Com ela o tédio, a irritação e a hipervigilância social. Você percebe que dependendo do que fizer, será julgado. E não adianta o consolo da mãe, quando fala que as pessoas que te ridicularizaram são uns bobocas.

Mãe, ninguém fala boboca!

Existem mudanças grandiosas como perceber o corpo mudando, primeiros interesses românticos entre outras coisas. Mas também existem as pequenas transformações, que não necessariamente vem com dor. São transformações que acontecem para se adaptar a vida em sociedade, entender códigos culturais e se ajustar a novos contextos. Numa dessas, enquanto eu voltava correndo pra casa, a sacola de cebola na mão e a missão no coração: salvar um almoço por meio da compra emergencial de um dos pilares do tempero brasileiro. Olhei ao redor e vi umas pessoas da minha idade… Caminhando.

Continue a Andar

Elas estavam indo para a quadra jogar bola e não estavam correndo, nem batendo bola. Estavam simplesmente caminhando… Na calçada, como mini cidadãos engravatados, prestes a iniciar sua jornada de 40 horas semanais em um escritório de almofadinhas! A partir desse dia eu fiquei observando meus pares: crianças com alguns anos vividos na primeira década de vida. Alguns brincavam de Beyblade, outros já começavam com o papinho de namoro. Mas todos, sem exceção, caminhavam… Eu era o único que corria.

Corria pra ir buscar algo no mercado, corria para ir na casa do meu avô, corria para chegar mais rápido na esquina. Afinal, se eu não chegasse lá antes que o moço da bicicleta, a minha mãe morreria, no mundo hipotético dos desafios mortais na minha cabeça. Pra mim caminhar era a forma lenta de correr ou o modo de economia de bateria da vida. Era mais chato, não dava pra sentir o vento na cara!

Até o momento que eu percebi que a moda era caminhar. Andar, pé ante pé, num ritmo menor, sem risco de se machucar ou de se passar por ridículo.

– E ei, eu não sou ridículo! — Pensei enquanto diminuía o ritmo dos passos aos poucos e finalizava a missão de entrega da cebola enquanto… Caminhava.

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